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“Fábricas Triunfo, a Maior Organização Industrial do Centro do País”

A empresa “Fábricas Triunfo” teve origem na Sociedade de Mercearias Lda, fundada em 1913, na Rua dos Oleiros, em Coimbra, pelas mãos de um grupo de empresários desta cidade liderados por Mário Pais e Adriano Viegas da Cunha Lucas. Um projeto que viria a ser um dos motores de toda a região de Coimbra e que iria criar aquela que ainda é hoje uma grande referência de bolachas em Portugal.

As instalações fabris localizavam-se junto à linha de caminho de ferro, na margem direita de rio Mondego, numa base industrial ainda muito ligada à produção e ao comércio tradicional e local e à venda de produtos de mercearia e produção de farinha, azeite, vinagre e aguardente. Numa mudança de escritura em 1922, passa a designar-se Sociedade de Mercearias e Farinhas Lda, onde já se vendia farinhas e sêmeas de trigo, para além da sua vertente de mercearia. Ainda no mesmo ano, volta a mudar de nome para Sociedade de Mercearias e Fabril Lda, um passo que a inseriu na indústria da moagem e panificação, e na produção de massas alimentícias e bolachas, permitindo um grande crescimento da fábrica e aumento de produção. Em 1923 dispunha já de filiais em Lisboa e no Porto e nos anos 30, a empresa adquiria unidades moageiras em outras localidades, nomeadamente em Castelo Branco e Setúbal.

Por fim, alcança o nome tão conhecido, Fábricas Triunfo Lda, a 20 de abril de 1932, apresentando-se como um dos edifícios industriais mais notáveis da baixa da cidade, sendo composta por 5 corpos, com 3 funções diferentes: a moagem, a produção de massas e a produção de bolachas e biscoitos (figura 1).

A 8 de dezembro de 1938, a fábrica sofreu um grande incêndio que afetou a maior parte das instalações, apenas se salvando a parte da moagem, situada nas traseiras do edifício. No entanto, logo após o ocorrido, em 1939, foi iniciada a construção de uma nova fábrica no mesmo terreno, segundo um projeto do arquiteto A. Machado da D.G.E.N. e construção de A. Maia. O novo edifício, finalizado em 1940, tinha uma estrutura de betão armado e ferro, uma forma de defesa para evitar eventuais posteriores incêndios (figura 2).

Os anos 40 trouxeram grandes progressos no processo de produção, com a implementação de rigorosos controlos de qualidade e um laboratório de análises e testes na própria fábrica. Nesta altura a empresa empregava cerca de 500 trabalhadores, destacando-se pela sensibilidade e ação social e higiénica para com os seus operários.

Após este período e a aprovação do plano de urbanização de Étienne de Gröer para a cidade de Coimbra nos anos 40, a fábrica viu-se obrigada a transferir as suas atividades para a “Zona Industrial da Pedrulha” na década de 50, levando ao abandono progressivo da fábrica na baixa. A unidade de fabricação de massas, na Rua dos Oleiros, que funcionou ainda como sede da empresa, encerrou na década de 80 e em 2004 estas instalações foram demolidas.

Em 1949 deu-se então início à construção da nova Fábrica Triunfo Bolachas, cujo corpo principal apenas seria finalizado em 1953, e que se localizava na Rua Manuel Madeira, antiga Estrada Nacional nº1, Freguesia de Eiras, Zona Industrial da Pedrulha, em Coimbra.

Esta fábrica era constituída por um edifício central de caráter industrial e destinava-se à fabricação dos produtos. A fachada principal era dotada de uma torre e um grande painel de azulejos que decorava todo o conjunto. Este painel azulejar, em formato circular, do artista A. Ramos, possui a inscrição “Fábrica Triunfo - Porto - Coimbra - Lisboa” que emoldura uma imagem, de linguagem renascentista, de um cavaleiro triunfante no seu cavalo alado, inspirada na obra “Le Triomphe de l’Art” de Léon Bonnat (figura 3).

O volume junto à antiga Estrada Nacional destinava-se à receção, a salões de festa, gabinetes e ao embalamento final. Os armazéns de matéria-prima encontravam-se no corpo posterior das instalações. Foram construídos dois pequenos edifícios adjacentes ao edifício central, um deles destinava-se à central "diesel", elétrica e geradora de vapor e outro era dedicado à central geradora de gás pobre. Outro edifício foi também erguido a sul das instalações principais, destinado a serviços sociais, a um refeitório e ainda a uma garagem. A norte foram ainda construídos armazéns de descasque de arroz e ainda um infantário.

Um elemento publicitário, de 1961 – com um desenho das novas instalações da unidade de massas e bolachas da Pedrulha refere as Fábricas Triunfo como “a maior organização industrial do centro do País” (figura 4). Presente em Coimbra, e com delegações em Lisboa, Porto, Abrantes e Faro possuía, então, duas moagens e produzia massas alimentícias, bolachas, arroz, drops e rebuçados.

A implantação da unidade fabril Triunfo Bolachas em 1949, a par com a grande procura dos produtos ali produzidos e o crescimento económico da empresa, despoletou a atração de novos ramos industriais. Neste contexto surge uma nova fábrica da mesma sociedade e do mesmo setor industrial, mas de um ramo diferente que se destinava à produção de alimentos compostos para animais, vulgo rações (figura 6).


A fábrica Triunfo Rações acabou por instalar-se num terreno de geometria triangular, muito próximo do local onde já estava implantada a Fábrica de Bolachas da mesma sociedade. No entanto, estas instalações fabris tinham a vantagem de usufruir diretamente da linha de caminho-de-ferro, através de um ramal particular para o transporte da matéria-prima, o trigo, que era armazenado nos silos de cereais, localizados junto à linha. A construção desta fábrica, que se iniciou pelos silos em 1956, foi sendo alvo de sucessivas ampliações, ao longo das décadas de 60 e 70. Para além dos silos, a fábrica era composta por um imponente bloco industrial vertical, destinado à moagem, e por dois armazéns (figura 5).

Com a década de 50 a marcar um período de grande expansão, a Triunfo oferecia aos consumidores portugueses, já naquela altura, mais de 25 variedades de bolachas diferentes, entre as quais a Maria, Torrada ou Wafers.

Em 1974, as Fábricas Triunfo abrem a sua primeira fábrica em Lisboa, em Carnaxide, dedicada à produção de bolachas e massas, numa fase em que se consolidava o mercado interno e o objetivo era internacionalizar a marca.

As Fábricas Triunfo de Coimbra e Lisboa integravam, assim, a produção de bolachas, massas alimentícias, descasque de arroz e rações para animais, chegando a empregar, na década de 70, mais de um milhar de trabalhadores. Até esta mesma década as bolachas eram vendidas maioritariamente a peso nas mercearias, que as adquiriam em latas de 1,5 kg a 3 kg e que ostentavam belos e atrativos desenhos publicitários (figura 7).

A marca Triunfo foi, aliás, a primeira marca de bolachas a aparecer na televisão portuguesa. Esta presença histórica, nos principais meios de comunicação e outdoors, levou a marca a beneficiar de uma relação de grande proximidade com os consumidores (figuras 8 e 9).

A empresa viria a ser adquirida em 1994 pela Nutrinveste, holding do Grupo Mello, que passou também a deter as marcas Nacional e Proalimentar, ficando por isso responsável pela gestão de 90% da produção nacional de bolachas (figura 10). Por decisão do novo dono, a Fábrica Triunfo Bolachas de Coimbra, que empregava nesta altura 180 funcionários, encerrou a 30 de março de 2001, sendo a sua produção transferida para as instalações de Sintra, de Mem Martins (ex-Nacional).

Atualmente o cenário é de degradação e abandono total de uma unidade fabril que outrora empregava um número significativo de funcionários e partilhava o seu agradável odor com toda a área envolvente da Pedrulha.

Também a Fábrica de Rações caiu no abandono após uma última vistoria realizada em 1999 com parecer negativo, levando ao seu encerramento.

Neste contexto, a Triunfo, como líder destacada de mercado em bolachas, é identificada como a marca prioritária dentro do portfolio da Nutrinveste quer em termos de apoio publicitário, quer em termos de inovação. No final de 1999, a Triunfo lança um dos produtos mais bem sucedidos no mercado de bolachas em Portugal, as Chipmix. Uma inovação em toda a linha, quer em termos de produto e embalagem, quer em termos de comunicação – altamente irreverente para um público mais jovem.

Em 2004, a Triunfo passa a integrar o portfolio da multinacional United Biscuits, uma das principais empresas europeias no setor da alimentação, e a marca toma um novo rumo estratégico, focando-se nos segmentos Nutrição, Saúde e Tradição (figura 11). A Triunfo absorve a marca Proalimentar e lança mais dois grandes sucessos: Triunfo Digestive e Triunfo Mini Diver.


Dois anos mais tarde, em 2006, a multinacional norte-americana Kraft Foods adquire o negócio de bolachas à United Biscuits, incluindo a unidade fabril de Mem Martins e as marcas portuguesas Triunfo e Proalimentar (figura 12). O ramo português desta multinacional passa então a designar-se “Kraft Foods Portugal Ibéria – Produtos Alimentares, Unipessoal, Lda”. Nesta fase, a Triunfo reforça a sua presença no segmento Tradicional, lançando desde então vários produtos inovadores, como por exemplo, em 2011, os Mini Clássicos, um novo conceito que oferece ao consumidor as bolachas tradicionais de sempre num formato mini e numa embalagem “saco”, ideais para partilhar em família. Em 2013 a área de negócios da Kraft Foods dedicada aos snacks mudou de nome e de acionistas, passando a designar-se Mondelez International (figura 13).

Ainda em 2013, a Triunfo celebrou o seu centésimo aniversário como uma das grandes marcas portuguesas, produzindo bolachas não só para o mercado português, mas também para países onde existem emigrantes portugueses, como França ou Luxemburgo, e para as ex-colónias portuguesas, principalmente Angola (figura 14).

Em finais de 2015, a multinacional Mondelez, alegando a baixa utilização da capacidade de produção da fábrica em Mem Martins, que emprega nesta altura 92 trabalhadores, comunica a decisão do seu encerramento, com vista à deslocalização da produção para a sua nova fábrica em Opava, na República Checa.

No entanto, em março de 2016, a empresa Cerealto chegou a acordo com a Mondelez International para manter a atividade industrial na fábrica de bolachas de Mem Martins (figura 15). Este acordo contemplou a manutenção dos postos de trabalho desta unidade, assim como a venda, à Cerealto, da maquinaria e das linhas de produção de que a Mondelez International era proprietária. A operação não incluiu a venda de nenhuma das marcas da Mondelez, contudo, este contrato, previa que a Cerealto fabricasse alguns produtos para a Mondelez.

A compra da fábrica de Mem Martins foi ao encontro da estratégia de expansão internacional da Cerealto – que é a sua segunda fábrica em Portugal, após a aquisição, em 2013, à Danone, da instalação de alimentação infantil Nutriceal Foods, localizada em Benavente, Santarém.

A Cerealto é uma empresa de alimentação com uma história de mais de 25 anos de fabrico de produtos com base cereal em diversas categorias: bolachas, cereais de pequeno-almoço, alimentação infantil, pão, pastelaria, massa ou produtos sem glúten. Apoiada por mais de 14 fábricas em Espanha e um centro de referência de R&D na Europa, a Cerealto conta com centros de operação em Portugal, Itália, Reino Unido, México e nos Estados Unidos e tem clientes em mais 40 países.

Ao longo da sua já centenária história, a marca Triunfo foi sendo alvo de diversas modificações do desenho do seu logótipo, tornando-o mais moderno e apelativo. Em resultado da consulta de alguns itens publicitários da marca, apresenta-se na figura 16 uma evolução desses logótipos até aos dias de hoje.


A propósito do primeiro pacote de açúcar mostrado na pagela apresentada nas imagens, onde se refere “bolachas Triunfo, uma preferência portuguesa”, provavelmente da década de 60/70, deixo aqui também uma curiosa publicidade dada Triunfo, publicada na Gazeta de Coimbra em dezembro de 1938, muito ao estilo do Estado Novo.


Convido ainda a verem o seguinte vídeo, onde se relatam os primeiros 100 anos da história da marca Triunfo:

Partilho a pagela em formato pdf, que poderão descarregar aqui.

Fontes: 

- “Arquitetura Industrial em Coimbra no século XX - A Zona Industrial da Pedrulha”, Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura.; 

- “Fábrica Triunfo Rações - Reconversão de um Espaço Industrial”, Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura; “Fábricas Triunfo”, Restos de Coleção em  https://restosdecoleccao.blogspot.com/2011/02/fabricas-triunfo.html


Nota: Post revisto a atualizado de um publicado inicialmente a 24 maio 2022 em https://www.facebook.com/pacoteca.acucar

Histórias do Hotel Astória de Coimbra

O estudo do objeto colecionável, para além da aquisição de conhecimentos sobre um determinado tema, permite-nos, por vezes, viajar no tempo, imaginando, noutras décadas passadas, os aspetos que levaram à criação desse objeto bem como o trajeto que terá percorrido até chegar às nossas mãos. E, por que não dizê-lo, as histórias que esses objetos nos possam transmitir e suscitar, perdurando no nosso imaginário…

Foi o que me aconteceu ao aprofundar os conhecimentos sobre alguns pacotes de açúcar da cadeia de Hotéis Alexandre de Almeida, debruçando-me hoje sobre o Hotel Astória de Coimbra. Fiquei assim a saber que o edifício original foi mandado construir pela Companhia de Seguros “A Nacional” entre 1915 e 1919, tendo, mais tarde, sido arrendado a Alexandre de Almeida que ficou responsável pela conclusão do seu interior e adaptação à indústria hoteleira. O Hotel Astória abriu portas em 1926, tendo a Companhia de Seguros “A Nacional” ficado com três divisões no 1º andar para funcionamento da sua agência. Nessa altura foi considerado como a catedral dos hotéis nacionais e internacionais, pela oferta de comodidades invulgares para a época, como a primeira central telefónica a ser instalada e a funcionar num hotel em Portugal, com telefones em todos os quartos, o elevador – um dos primeiros da cidade, o aquecimento central ou o requintado e luxuoso mobiliário.

O monumental e sumptuoso edifício, projetado pelo arquiteto Adães Bermudes, conjuga-se na perfeição com o edifício da agência de Coimbra do Banco de Portugal, edificado uns anos antes pelo mesmo arquiteto, ali ao lado no atual Largo da Portagem. Destaca-se também pela sua situação em gaveto, com duas frentes articuladas em ângulo agudo, tipologia tornada necessária pela ligação entre a nova e larga Avenida Emídio Navarro com a Rua da Sota, do lado da Baixa medieval. Os alçados são unidos numa esquina semicircular, que visualmente funciona como torreão, coroado por zimbório circular.

Em 1944 a companhia de seguros “A Nacional” adquiriu o edifício contíguo ao Hotel, onde estava instalado o primeiro Hotel Avenida, e estabeleceu ligação entre os espaços, ficando o Hotel Astória com a estrutura atual. Esta companhia de seguros tinha por emblema o “Génio da Independência”, representado por um jovem alado a quebrar as correias que o manietavam e a transportar a bandeira. Durante quase um século, uma réplica em bronze do “Génio da Independência” ornamentou a fachada do Hotel Astória, mas aquando de uma das obras de conservação, provavelmente das de 2002, levou sumiço, ou porque incomodava os donos do imóvel, ou porque a sua venda tornava passível minorar os custos da intervenção.

As suas zonas públicas, com realce para o lobby com os seus mármores, seus ferros forjados e suas janelas modernistas, para a requintada sala de estar “Anos 20”, para o seu majestoso restaurante com seus belíssimos painéis de madeira, para o elevador original, também de madeira e ainda em funcionamento, constituem uma viagem a uma época passada. Nos quartos, o mobiliário do início do hotel, os tetos altos, os radiadores decorativos e as antigas e profundas banheiras, constituem também excelentes exemplares da época.

Por este Hotel passaram as mais ilustres personalidades da nossa história, com destaque para o célebre discurso proferido de uma das suas varandas por Humberto Delgado, o “General Sem Medo”, a 31 de maio de 1958, aquando da sua corrida à Presidência da República, enfrentando a figura de António Oliveira Salazar. Ou ainda em 1990, durante a Presidência Aberta realizada por Mário Soares, em que este elegeu para tanto o Hotel Astória como seu palco e onde pernoitou, durante 10 dias, a sua comitiva, chegando a ser apelidado pelo povo como o “Palácio de Belém da Portagem”. Foi ainda cenário de alguns filmes de época, nomeadamente, em 2019, a adaptação do romance o “Ano da Morte de Ricardo Reis”, de José Saramago, realizado por João Botelho.

Ao longo dos anos a entrada do Hotel Astória tem também servido de palco para algumas das praxes académicas, nomeadamente a pergunta dos doutores aos seus caloiros, sempre que passam à sua porta: “Qual o número da porta do Hotel Astória?”. E o que os caloiros desprevenidos sofrem ao procurarem, a maior parte das vezes em vão, o número “21” que, curiosamente, se encontra inscrito na placa do nome do Hotel, “dissimulado” no “A” de “Astória”.

Em 2011 o Hotel Astória foi classificado como Monumento de Interesse Público, ficando ainda integrado em Zona Especial de Proteção.

O empresário António de Almeida, apesar de ter completado apenas o quarto ano de escolaridade, foi, contudo, um grande empreendedor e considerado o primeiro grande industrial hoteleiro português. Em 1916, com 31 anos, associa-se na exploração do Palace Hotel do Bussaco (em 1920 passa a deter em exclusivo a sua concessão), seguindo-se a aquisição de três hotéis em Lisboa – Hotel Metrópole (1917), Hotel Francfort (1919) e Hotel Europa (1920) – e ainda o Palace Hotel da Curia (1922).

A cadeia de equipamentos hoteleiros “Hotéis Alexandre de Almeida, Lda” consolidou-se com a fundação do Hotel Astória (1926), com o Hotel Miradouro no Bussaco (1940-45) e com o Hotel Praia-Mar (1968) em Carcavelos. 

A empresa de Alexandre de Almeida foi ainda responsável, em 1947, pela montagem e exploração do restaurante e do bar do Aeroporto de Lisboa.

Em 1958, foi por sua iniciativa criada a primeira escola de ensino hoteleiro em Portugal, a Escola Hoteleira Portuguesa, denominada durante alguns anos por Escola Hoteleira Alexandre de Almeida e atualmente por Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa.

Para Alexandre de Almeida, um hotel deveria ter a sua própria adega, à semelhança do que acontecia com os exuberantes locais de pernoita na Riviera francesa e italiana. Como ponto de partida, utilizou as vinhas da sua própria família, situada nos sopés da Serra do Buçaco, para produzir um vinho especial, engarrafado, numa altura em que esta era ainda uma atividade rara.

Viajou por toda a Europa e América do Norte, no estudo da sua profissão, e foi representante da Indústria Hoteleira nos Congressos Internacionais, do Mónaco, Nova Iorque, Londres, Roma, Paris, Bruxelas e Barcelona. Foi Vice-Presidente da Alliance Internationalle de l´Hôtellerie, Diretor da Sociedade de Propaganda de Portugal e Procurador à Câmara Corporativa, entre outras.

Terá sido com uma visão do que de melhor se fazia lá fora no setor hoteleiro que Alexandre de Almeida introduziu nos seus hotéis um elemento distintivo e ainda muito pouco usual, nessa época, por terras lusas. Falo dos pacotes de açúcar com publicidade aos hotéis da cadeia Alexandre de Almeida em formato “envelope”, seguramente alguns dos primeiros a circular em Portugal, provavelmente das décadas de 1950/60 (imagens da primeira folha da pagela que mostro de seguida).

Depois, em pacotes de açúcar já embalados pela SEMPA – Sociedade de Empacotamento Automático e mais tarde outro pela SORES – Sociedade de Refinadores de Santa Iria, provavelmente de finais dos anos 60 até finais dos anos 70, surge-nos a imagem inconfundível do Hotel Astória. Estes, aliás, farão parte de outras tantas séries constituídas por 4 pacotes de açúcar com a imagem, para além do Hotel Astória, do Palace Hotel do Bussaco, do Curia Palace Hotel e do Hotel Praia-Mar em Carcavelos (destes falarei aquando da publicação da história desses hotéis).

Finalmente, após um “vazio” de aproximadamente duas décadas sem pacotes de açúcar personalizados, os Hotéis Alexandre de Almeida voltam, desde 2003, a disponibilizar aos seus hóspedes (e para contentamento de nós, colecionadores) um novo “cartão de visita”, ostentando na sua face principal o símbolo desta cadeia de hotéis e o nome dos hotéis que a têm vindo a integrar.

Aqui fica a minha homenagem ao industrial António de Almeida e à sua família que têm sabido, ao longo de três gerações, preservar e aumentar o seu legado, fazendo com que o Grupo Hotéis Alexandre de Almeida, que comemorou os 100 anos em 2017, seja considerado o mais antigo grupo hoteleiro português.

Quanto ao Hotel Astória, que comemorará o seu centésimo aniversário em 2026, continua de portas abertas a quem queira pernoitar no centro de Coimbra, constituindo um cenário perfeito para uma evasão nostálgica ao passado.

Partilho a pagela em formato pdf, que poderão descarregar aqui.

Nota 1: Algumas das imagens dos pacotes de açúcar apresentados na pagela, bem como a numeração dos mesmos, fazem parte do “Catálogo de Pacotes de Açúcar de Hotéis e outros alojamentos” do colecionador e amigo Carlos Dias publicado em http://sugardiashoteis.atwebpages.com/.

Nota 2: Post publicado inicialmente a 31 julho 2021 em https://www.facebook.com/pacoteca.acucar

Fontes: 

- Restos de Colecção, “Hotel Astória em Coimbra”, https://restosdecoleccao.blogspot.com/2011/09/hotel-astoria-em-coimbra.html; 

- Hotéis Alexandre  de Almeida, Hotel Astória, https://www.almeidahotels.pt/pt/hotel-astoria-coimbra 

- A’ Cerca de Coimbra, “Coimbra: Hotel Astória 2”, https://acercadecoimbra.blogs.sapo.pt/coimbra-hotel-astoria-2-131562; 

- Fragmentos da Memória Coimbrã, https://www.facebook.com/groups/fragmentos.memoria.coimbra  


O Café Arcádia na história tertuliana da Lusa Atenas


As tertúlias, formadas por um grupo de pessoas dadas às letras, às artes ou, duma maneira geral à cultura, derivam da Arcádia Lusitana ou Olissiponense do século XVIII, que funcionou como espécie de tertúlia dos tempos modernos e que se chamava então “Academia”, caraterizando-se pela tendência crítica e por uma reação contra a má literatura, que agitou espíritos e fomentavam acesas polémicas.

São célebres as tertúlias do Café Arcádia de Coimbra, tuteladas então por Miguel Torga, mas também as da “Brasileira”, da “Central”, do “Nicola”, da “Sírius”, da “Briosa”, do “Montanha”, do “Internacional”, do “Mandarim”… Todas elas, podemos dizer, tiveram uma influência notável na vida cultural da Lusa Atenas.

É, no entanto, do velho Café Arcádia, entretanto encerrado como muitos outros, que hoje vos convido a conhecer um pouco mais da sua história.

Apresento então uma pagela com o resultado da pesquisa sobre a história e os pacotes de açúcar que conheço deste café. Os dois pacotes de açúcar apresentados diferem na forma de identificação da mesma empresa impressora do papel de embalagem: “coel-LISBOA” e “coel”, existindo, no entanto, variações de tonalidade da cor dourada/esverdeada.

Quem conhece outros pacotes aqui não apresentados que queira partilhar e enriquecer mais esta história do Café Arcádia?

O Café Arcádia que começou por ser Pastelaria Arcada

A sociedade elegante de Coimbra a partir de 23 de dezembro de 1921 passou a marcar os seus “rendez-vous” na nova Pastelaria Arcada na Rua Ferreira Borges. Esse luxuoso e elegante estabelecimento foi uma arrojada iniciativa de um galego, de nome José Garcia, e do conimbricense Caetano Rocha. As suas magnificas salas, decoradas em estilo árabe pelo distinto artista António Eliseu, tinham um tom exuberante para responder à mais seletiva clientela da cidade. A pastelaria, da melhor qualidade, era confecionada em fábrica própria, construída para o efeito na Avenida Navarro. Tanto luxo, tanta ambição mas não durou muito tempo nas mãos de José Garcia e Caetano Rocha e acabam por ceder a Pastelaria a uma sociedade constituída por Froes & Rôxo. 

Entretanto, em 1948, uma nova sociedade constituída, entre outros, por Manuel Maria Gaitas, antigo negociante de peixe, e pelo “senhor Abel” que tinha sido empregado de mesa do Café Nicola, compra o trespasse e, abre, agora, com o nome de Arcádia. Aparece como funcionário José Maria Cerveira, genro de Manuel Maria Gaitas, que acaba por comprar parte da sociedade, e em novembro de 1950, José Maria Cerveira passou a ser o dono do Café Arcádia e a partir daí conhecido como "Zé Maria do Arcádia". 

Este café foi o centro de tertúlia desportiva dos doutores (elementos da comunidade académica) de Coimbra, adeptos da Académica, por oposição ao Café Santa Cruz, ponto de encontro dos futricas (elementos sem estudos universitários), frequentado pelos unionistas (adeptos do União de Coimbra).

Do amplo Café Arcádia, o lado esquerdo de quem entra era reservado aos teóricos da Académica que passaram a ter ai sua “residência”. Nas linhas escritas pelas memórias dos tertulianos do Arcádia, estes teóricos da bola, em domingo de jogo e de orelhas coladas ao rádio, sofriam ao som da voz de Manuel Gaspar, comentador dos jogos da Briosa na Emissora Regional. E como teórico da bola, “a paixão pela Académica era alimentada nas tardes perdidas no café Arcádia”, levando o jornalista a dizer o que pensava e o que não pensava.

Era também o local preferido dos treinadores da Académica Cândido de Oliveira, Pedroto, Tellechea, etc… Faziam-se as equipas, discutiam-se opções técnicas, choravam-se derrotas e festejavam-se vitórias. 

Por sua vez, o lado direito  do café estava reservado aos forasteiros e era onde se sentavam as senhoras provenientes de uma elite burguesa que à volta das mesas a abarrotar de torradas e galões se ocupavam das bisbilhotices sociais. A discussão política era deixada para a vizinha A Brasileira.

As tertúlias, formadas por um grupo de pessoas dadas às letras, às artes ou, duma maneira geral à cultura, derivam da Arcádia Lusitana ou Olissiponense do século XVIII, que funcionou como espécie de tertúlia dos tempos modernos e que se chamava então “Academia”, caraterizando-se pela tendência crítica e por uma reação contra a má literatura, que agitou espíritos e fomentavam acesas polémicas.

Terá sido em meados da década de 1960 que o Dr. Adolfo Correia da Rocha, até então cliente diário do café A Brasileira, e que mantinha consultório ali bem perto num 1º andar do Largo da Portagem, começou a frequentar o Arcádia. Para esta mudança de poiso muito terá contribuído a recente amizade estabelecida com o então dono e também proprietário do edifício, José Maria Cerveira, fruto das grandes caçadas que realizavam com outros companheiros. Foi assim neste espaço de tertúlias que, sob o pseudónimo literário de Miguel Torga, este poeta e escritor terá concebido algumas das suas obras. 

Para além de Miguel Torga, o Café Arcádia foi ainda, durante décadas, lugar de encontro de outras personalidades como sejam os médicos Fernando Vale, Mário Braga Temido, Guilherme Oliveira, o professor Afonso Queiró e dois futuros ministros da Educação: Veiga Simão (o último do Estado Novo) e Eduardo Correia (o primeiro pós-25 de Abril), entre outros.

O Café Arcádia, que no seu período auge chegou a ter 19 empregados, foi portanto também um lugar importantíssimo na cidade Lusa Atenas durante cerca de meio-século já que, a 4 de Maio de 2000, fechou as portas, dando lugar a um pronto-a-vestir. Não terá assim resistido à crescente perda de clientes, fruto também da grande descaraterização, nos últimos anos, da Baixa Coimbrã e que já tinha provocado o encerramento, 5 anos antes, de outro mítico café, A Brasileira.

Como curiosidade e bem a propósito dos pacotes de açúcar a seguir representados, conta José Maria Cerveira que, nos primeiros anos, tinha uma casa de Lisboa, a Luso-Brasileira, que lhe concedia um crédito de 50 contos para a aquisição dos lotes de café daquela marca. Mas apercebendo-se que o negócio não ia bem e que era o torrador de café quem ganhava mais dinheiro naquele processo, uma vez que era ele quem “importava o café, torrava-o, fazia as misturas, nos lotes, e depois ia distribuir”. Foi então por influência de um amigo que trabalhava na “A Caféeira”, Henrique Ildefonso, sob o pretexto de lhe passar a comprar os lotes de café dessa marca, que aprendeu o “segredo do café”. Passou então a fazer as suas próprias misturas das várias qualidades e origens de café, tendo montado um torrador a lenha em Barrô, aldeia do concelho de Águeda de onde era natural o seu pai. Foi nesta altura, ainda antes do 25 de Abril de 1974, que conseguiu assim ganhar uns “tostõezitos”. Segundo o próprio, era o único torrador de café em Coimbra, tendo até equacionado em vender a outros cafés da cidade. No entanto, após algumas visitas, não lhe tendo agradado as condições das montras onde estes guardavam o produto, desistiu rapidamente dessa ideia. Entretanto, dá-se a revolução dos cravos e, com a perda das ex-colónias, o negócio da torra do café vai por água abaixo, com o quilo de café a passar de 20 escudos para os 300 escudos. Teve assim de abandonar a torrefação, começando novamente a comprar o café em lotes. Sem certezas e sem outra informação, podemos especular que José Maria Cerveira possa ter passado a comprar os lotes de café da “A Caféeira” ao seu amigo, podendo ser desse período os pacotes de açúcar desta marca aqui apresentados.

Partilho a pagela em formato pdf, que poderão descarregar aqui.


Fontes: 
- “A Brasileira” de Coimbra, História arquitetónica de um café, Lília Andreia Félix Coutinho, Coimbra, Julho 2011
- “Café Arcádia”, http://astiascamelas.blogspot.com/2018/03/cafe-arcadia.html consultado em 15/09/2020
- Coisas sobre Coimbra, O pica e a Briosa, António  Curado, Livraria Almedina

Nota: Post publicado inicialmente a 18 maio 2021 em https://www.facebook.com/pacoteca.acucar


Empresas de Coimbra publicitam em pacotes de açúcar


Na segunda metade dos anos 80, muito em resultado da adesão de Portugal à União Europeia em 1986, do consequente aumento dos salários reais e diminuição do desemprego, deu-se um crescimento generalizado do consumo em Portugal. A redução das taxas de juro estimula a febre do consumo, em especial nas grandes cidades, tornando mais atraente gastar do que poupar. Os eletrodomésticos, os equipamentos eletrónicos, o mobiliário e os automóveis que os portugueses adquirem, ou a procura de casas mais espaçosas e confortáveis ou ainda o investimento para passar férias, têm agora um peso muito maior no orçamento familiar do que as despesas com a alimentação.

Porque estamos a falar de um período anterior ao início da era digital, as pequenas e médias empresas recorriam, na maioria das vezes a um nível regional, à publicidade em jornais, revistas e panfletos como forma de divulgar e promover os seus negócios, apelando assim ao consumo dos portugueses. Neste período, também conhecido como “os anos de ouro da publicidade”, marcado pelo aumento dos investimentos publicitários, procurava-se uma componente mais lúdica e abordagens mais inovadoras, pois era preciso descobrir novas formas de prender um público cada vez mais exigente, esclarecido e infiel.

É neste contexto socio-económico e também publicitário que terá sido idealizada e materializada uma série de pacotes de açúcar com um modelo não muito usual na altura (e mesmo nos dias de hoje), pois junta num mesmo propósito publicitário, provavelmente por razões de controlo do seu custo, um conjunto de empresas distintas. Trata-se de uma série (e suas variantes) que publicita 8 empresas dos setores do comércio e indústria do concelho de Coimbra, distribuídas pelos ramos da construção civil, metalúrgica, mobiliário, eletrodomésticos e automóvel. Estas empresas designavam-se, na altura: 

Fucoli – Fundição Conimbricense, Lda

Bilhares Carrinho 

Salvador Caetano (Coimbra), SA

Fapricela – Fábrica de Pregos do Centro, Lda

Móveis Evaristo

Torricentro – Sociedade de Construções do Centro, SA

Majorpal – Comércio de Eletrodomésticos, Lda

Concessionários MotoGomes

O empacotamento destes pacotes de açúcar foi realizado na extinta embaladora Heitor da Costa, anteriormente designada “Fábrica de Empacotamento Automático de Coimbra de Heitor da Costa”, localizada na Adémia (Coimbra), através da sua marca SOAÇUCAR com o típico símbolo da torre da Universidade de Coimbra.

As 6 séries distintas que identifiquei até ao momento, batizadas “Empresas de Coimbra”, e que designei de “Variante A, B, C, D, E e G”, são constituídas por 4 pacotes de açúcar diferentes com uma unidade gráfica semelhante e que apresentam em cada uma das faces (frente e verso) uma das 8 empresas publicitadas. Entre as “Variantes” identificadas, que não distinguem possíveis evoluções no processo de impressão ou variações de tonalidades de cor eventualmente existentes ao longo dos anos da sua produção, verificam-se alterações de uma ou mais das seguintes caraterísticas: dimensão da letra; alteração do número de telefone com mais um dígito; supressão ou acrescento de texto; disposição gráfica; alteração de cor. Acrescentei ainda uma “Variante F” com um conjunto de pacotes de açúcar que conheço que apresentam as frentes e versos trocados relativamente às anteriores variantes (inclui a frente e o verso de um outro pacote de açúcar com publicidade à “Leasinvest”, alheio a esta “série”).

Apresento aqui imagens das pagelas com as várias variantes e uma pequena resenha histórica das 8 empresas publicitadas. 

Partilho igualmente a pagela em formato pdf, que poderão descarregar aqui.

Quem tem outros pacotes de açúcar aqui não representados e que queira divulgar?


Nota: Post publicado inicialmente a 27 abril 2021 em https://www.facebook.com/pacoteca.acucar/

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