Dou início a um dos temas que me é especialmente caro, ao qual tenho dedicado particular atenção nos últimos anos. Refiro-me aos Cafés Históricos espalhados por este nosso Portugal, muitos dos quais já integram a Rota dos Cafés com História de Portugal. Lugares centrais na vida pública, os designados “Cafés Históricos”, “Cafés com História” ou “Cafés Centrais”, marcam a identidade das suas localidades, não só como ponto de encontro para beber um simples café ou espaço de convívio e de tertúlias, mas também pela importância do seu Património Cultural, Arquitetónico e, por vezes, Gastronómico. Prova disso é a recente integração da “Historic Cafés Route”, da qual já fazem parte perto de uma centena de cafés do velho continente, como mais um "Itinerário Cultural do Conselho da Europa".
Hoje vou falar
sobre o bicentenário Martinho da Arcada, considerado o café-restaurante mais
antigo de Lisboa, e de Portugal, ainda hoje a funcionar – bate o Restaurante
Tavares num par de anos, e o botequim do Nicola só mais tarde seria café, e
depois restaurante, ambos em Lisboa.
No ângulo
nascente da Praça do Comércio, em Lisboa, no enfiamento da Rua da Alfândega e
esquinando com a Rua Bela da Rainha (atual Rua da Prata), sob a “Arcada do
Anselmo” – Anselmo da Cruz Sobral, negociante e alto funcionário da
administração pública, primeiro proprietário deste prédio –, surgia, em 1778,
um modesto estabelecimento para venda de bebidas, gelo e sorvetes. Este
estabelecimento funcionava também como bilheteira para as carreiras de seges – pequenas
carruagens com apenas duas rodas puxadas por um cavalo – entre o Terreiro do
Paço e Belém.
Poço de Neve da Serra da Lousã e capela mandada erigir por Julião Pereira de Castro em honra de Santo António
Seria, no
entanto, inaugurado oficialmente a 7 de janeiro de 1782 – consta que com
a presença do marquês de Pombal – como Casa da Neve, sendo seu primeiro
proprietário Julião Pereira de Castro, neveiro-mor da Casa Real, o homem
que tinha o monopólio do fornecimento de gelo à Corte de D. José e à cidade de
Lisboa. Para tal, adquire a Real Fábrica da Neve do Coentral, no lugar de Santo
António da Neve (Serra da Lousã), e a Real Fábrica de Gelo de Montejunto,
imprimindo-lhes, desde logo, melhorias significativas por forma a aumentar a
produção de gelo. Por exemplo, na Serra da Lousã, a 1100 m de altitude, mandou
edificar 7 poços que serviam para armazenamento e compactação de neve, tarefa contratada
à jorna nas povoações vizinhas. A neve compactada nos poços era cortada em
grandes blocos, que eram envoltos em palha e carregados em carros de bois até
Constância. Aí eram transferidos para barcos que os levavam até ao Terreiro do
Paço, em Lisboa. Grande devoto de Santo António, Julião Pereira de Castro
mandou erigir, nas imediações dos poços, uma capela em honra do Santo, local onde
as gentes pobres da Serra da Lousã rezavam para que nevasse, pois desta recolha,
obtinham um importante e valioso sustento.
"ESTA CAPELA DO GLORIOSO SANTO ANTÓNIO DE LISBOA A MANDOU FAZER JULIÃO PEREIRA DE CASTRO REPOSTEIRO DO NOSSO REINO DA CÂMARA DE SUA MAJESTADE E NEVEIRO DE SUA REAL CASA EM TERRA SUA ANO 1786"
No início do
funcionamento da Casa da Neve o ambiente era o típico dos botequins
setecentistas, frequentado por aventureiros, meretrizes e arruaceiros,
tornando-se mais tarde o centro de conspirações de diversos grupos políticos e
militares. Em 1784, o estabelecimento passou para o italiano Domenico
Mignani, com a designação de Casa de Café Italiana – havia algumas
décadas que os italianos se destacavam nos ramos da geladaria, da confeitaria,
do café e das bebidas. Em 1795 passou a ostentar o nome de Café do
Comércio, fazendo jus ao local. Como aconteceu com outros botequins, cafés
e farmácias da cidade, onde se bebia, jogava e conspirava, o intendente Pina
Manique, na sua cruzada contra o jacobinismo e libertinismo, mandou encerrar
este estabelecimento em 1810, – nesta altura vulgarmente designado por Café
dos Jacobinos –, pela defesa dos bons costumes, da moral e da monarquia
absoluta. O jacobino Bocage (1765-1805), que frequentara o local, já não viveu
este desgosto.
O Martinho da Arcada, século XIX
Com o triunfo
da Revolução Liberal, em 1820, o estabelecimento reabre com o nome Café
da Arcada do Terreiro do Paço pela mão de José de Melo. Mas a idade
de ouro só começa em 1829 quando é tomado pelo neto de Julião Pereira de
Castro, o proprietário original do café, de seu nome Martinho Bartolomeu
Rodrigues, o Martinho da Neve, pois, tal como o avô, era produtor de gelo nas
serras de Montejunto e da Lousã. Inicialmente, chama-se Café da Arcada.
Como este empresário viria a abrir outro café junto ao Rossio, mais amplo e
moderno, no recente quarteirão construído ao lado do então novo Teatro Nacional
D. Maria II, com o nome de Café Martinho, o do Terreiro do Paço passa a ser
conhecido por Martinho da Arcada, designação que se torna oficial em 1845.
Fernando Pessoa (à direita), o escritor António Botto, o escritor e poeta Raul Leal e o poeta modernista Augusto Ferreira Leal, tomando cerveja no Martinho da Arcada, 1928
Martinho
Rodrigues e, depois, seu filho, Julião Bartolomeu Rodrigues, fazem
dos dois cafés locais de encontro de políticos e literatos, em liberal convívio
com comerciantes e burocratas. E, ao mesmo tempo, trouxeram as mulheres à
frequência dos seus cafés, algo que acontecia então pela primeira vez. A
elegante decoração com mármore e madeiras combina com as tertúlias dos
progressistas, em breve rendidos ao republicanismo. Por esta altura o preço do
café ascende aos 40 reis, mas por pouco tempo, pois, com a república, chegam os
escudos e os cêntimos.
Pelo estabelecimento das arcadas passam figuras que fariam vingar o regime republicano, como França Borges, Afonso Costa, Bernardino Machado, Eusébio Leão, Manuel de Arriaga (primeiro Presidente da República eleito) e o poeta Henrique Lopes de Mendonça (autor da letra do Hino Nacional), que aqui tinha mesa reservada.
Café Martinho da Arcada, 1942
A família dos neveiros Bartolomeu Rodrigues já não acompanhou aqui o advento da República: durante vinte anos o café esteve nas mãos de José Isidoro Pereira que, em 1925, o trespassou à firma Mourão & Simões, Lda. Um dos sócios desta firma, Alfredo de Araújo Mourão, que já detinha a Pastelaria Ferrari, ao Chiado, tornou-se proprietário do café Martinho da Arcada em 1928. Alfredo Mourão, casado com Maria Judite de Sá Mourão, atribui-lhe então a gestão do café Martinho da Arcada, assumindo para si o comando da Pastelaria Ferrari. Foi este o período mais intensamente literário do espaço que, ainda no tempo da monarquia, fora clamado por Cesário Verde.
Fernando Pessoa saindo do Café Restaurante Martinho da Arcada
Nos anos vinte, o Martinho da Arcada começa a ser frequentado por Fernando Pessoa – depois de ter sido cliente assíduo de “A Brasileira” do Chiado –, que aqui se correspondeu com Mário de Sá Carneiro, o poeta seu confidente e companheiro na aventura da revista Orpheu, em 1915. No mesmo ano, Almada Negreiros leu aqui, pela primeira vez, o seu Manifesto Anti-Dantas. Ou porque trabalhavam na Baixa, ou porque o Chiado já não os atraía, os poetas desta geração acompanham Pessoa nesta nova morada de tertúlias. O Martinho da Arcada passa a ser o local de encontro dos heterónimos pessoanos e de António Botto, António Ferro e Raul Leal, que aqui fizeram o seu quartel-general em resposta a um movimento “moralizador” da literatura, em 1923. Conta-se que Fernando Pessoa terá tomado ali um último café – que nesta altura custava 5 tostões – com Almada Negreiros, o amigo poeta e pintor, três dias antes de falecer, a 27 de novembro de 1935.Após a ilegalização da Maçonaria, em 1935, nos anos radicais do salazarismo, tornou-se um dos pontos de afluência de inúmeros maçons e de conspiradores republicanos que, à mesa dos cafés, projetavam e sonhavam a revolução que, afinal, só se concretizaria, em 1974, com o 25 de Abril.
Almada Negreiros e Fernando Pessoa.
Desenho de Júlio Pomar para a estação de Metro do Alto dos Moinhos
Muitas vezes,
após encerrado o horário de funcionamento ao público do Martinho da Arcada, o
espaço do café serviu para a realização de sessões maçónicas – Alfredo de
Araújo Mourão viria a ser tesoureiro do Grande Oriente Lusitano – a coberto da
vigilância e repressão da polícia política.
Publicidade ao café-restaurante Martinho da Arcada, 1947
Durante o
Estado Novo o café firmou os seus créditos como restaurante, com clientela elegante
mas de menor notoriedade artística. Em 1960, com a morte do proprietário,
é herdado por sua filha, Albertina de Sá Mourão, constituindo-se a firma
Alfredo Mourão, Herdeira. Quando se dá o 25 de abril de 1974, a bica no
Martinho da Arcada custa 1 escudo e 50 centavos.
Desenhos das fachadas principal e lateral do café-restaurante Martinho da Arcada
Com projeto de
autor desconhecido, o Café-Restaurante Martinho da Arcada possui planta
retangular, mostra 4 portas, enquadradas por 4 pilastras duplas, emolduradas em
cantaria e encimadas por entablamento. Viria a ser classificado como imóvel
de interesse público, pelo Instituto Português do Património Arquitetónico,
em 1984. A Praça do Comércio, lugar onde está inserido, estava já
classificada desde 1910 como Monumento Nacional.
A mesa onde Fernando Pessoa se sentava
Necessitando
de obras urgentes de restauro, encerrou em 1988. No ano seguinte, no dia
em que se iniciaram as obras, sob o projeto do arquiteto Hestnes Ferreira, Albertina
de Sá Mourão vendeu a casa a António de Sousa, um minhoto que se fez
homem no Rio de Janeiro.
Sala de almoços e jantares do café-restaurante Martinho da Arcada
O Café reabriu
com nova gerência em 22 de fevereiro de 1990, com uma luxuosa sala de
jantar. Mantém a um canto a mesa onde Fernando Pessoa escreveu os poemas da
“Mensagem”, o seu único livro publicado em vida, e tem atualmente um painel de
azulejos, de autoria do pintor Ângelo de Sousa, representando o escritor. Foi
ainda colocado sobre o balcão corrido do café um painel de azulejos retangular
figurando uma cena de cozinha de finais do séc. XVIII, de autor desconhecido. Este
painel encontrava-se, anteriormente, na zona de cozinha sendo somente visto
pelos funcionários.
Painel de azulejos de finais do séc. XVIII, de autor desconhecido, anteriormente incluído na cozinha
Remodelado,
mas mantendo e valorizando a sua herança, o Martinho da Arcada iniciou um novo
período de tertúlias, dinamizadas pelo escritor Luís Machado. Desde então,
decorreram muitas dezenas de sessões com relevantes personalidades da política,
das artes, da economia, da ciência e da cultura, convidadas a partilhar a sua
experiência com o público. Em 1 de junho de 2000, este café atribuiu uma mesa a
José Saramago em homenagem ao escritor português Prémio Nobel da Literatura.
Painel de azulejos de autoria de Ângelo de Sousa, representando Fernando Pessoa
Nota: Os dois pacotes de açúcar que constam da pagela que agora divulgo (descarregar aqui), e que publicitam as duas “casas centenárias” Pastelaria Ferrari e Café Martinho da Arcada, serão dos anos 1960/70. Estes pacotes de açúcar provavelmente terão sido servidos aos clientes das duas casas, junto com a sua bica, numa época pós-falecimento do seu então proprietário Alfredo de Araújo Mourão (1874-1960), altura em que a gerência passa para a sua filha, Albertina de Sá Mourão, constituindo-se a firma Alfredo Mourão, Herdeira.













Sem comentários:
Enviar um comentário