Rota dos Cafés Históricos em Pacotes de Açúcar: Martinho da Arcada

Dou início a um dos temas que me é especialmente caro, ao qual tenho dedicado particular atenção nos últimos anos. Refiro-me aos Cafés Históricos espalhados por este nosso Portugal, muitos dos quais já integram a Rota dos Cafés com História de Portugal. Lugares centrais na vida pública, os designados “Cafés Históricos”, “Cafés com História” ou “Cafés Centrais”, marcam a identidade das suas localidades, não só como ponto de encontro para beber um simples café ou espaço de convívio e de tertúlias, mas também pela importância do seu Património Cultural, Arquitetónico e, por vezes, Gastronómico. Prova disso é a recente integração da “Historic Cafés Route”, da qual já fazem parte perto de uma centena de cafés do velho continente, como mais um "Itinerário Cultural do Conselho da Europa".

Hoje vou falar sobre o bicentenário Martinho da Arcada, considerado o café-restaurante mais antigo de Lisboa, e de Portugal, ainda hoje a funcionar – bate o Restaurante Tavares num par de anos, e o botequim do Nicola só mais tarde seria café, e depois restaurante, ambos em Lisboa.

No ângulo nascente da Praça do Comércio, em Lisboa, no enfiamento da Rua da Alfândega e esquinando com a Rua Bela da Rainha (atual Rua da Prata), sob a “Arcada do Anselmo” – Anselmo da Cruz Sobral, negociante e alto funcionário da administração pública, primeiro proprietário deste prédio –, surgia, em 1778, um modesto estabelecimento para venda de bebidas, gelo e sorvetes. Este estabelecimento funcionava também como bilheteira para as carreiras de seges – pequenas carruagens com apenas duas rodas puxadas por um cavalo – entre o Terreiro do Paço e Belém.

Poço de Neve da Serra da Lousã e capela mandada erigir por Julião Pereira de Castro em honra de Santo António

Seria, no entanto, inaugurado oficialmente a 7 de janeiro de 1782 – consta que com a presença do marquês de Pombal – como Casa da Neve, sendo seu primeiro proprietário Julião Pereira de Castro, neveiro-mor da Casa Real, o homem que tinha o monopólio do fornecimento de gelo à Corte de D. José e à cidade de Lisboa. Para tal, adquire a Real Fábrica da Neve do Coentral, no lugar de Santo António da Neve (Serra da Lousã), e a Real Fábrica de Gelo de Montejunto, imprimindo-lhes, desde logo, melhorias significativas por forma a aumentar a produção de gelo. Por exemplo, na Serra da Lousã, a 1100 m de altitude, mandou edificar 7 poços que serviam para armazenamento e compactação de neve, tarefa contratada à jorna nas povoações vizinhas. A neve compactada nos poços era cortada em grandes blocos, que eram envoltos em palha e carregados em carros de bois até Constância. Aí eram transferidos para barcos que os levavam até ao Terreiro do Paço, em Lisboa. Grande devoto de Santo António, Julião Pereira de Castro mandou erigir, nas imediações dos poços, uma capela em honra do Santo, local onde as gentes pobres da Serra da Lousã rezavam para que nevasse, pois desta recolha, obtinham um importante e valioso sustento.

"ESTA CAPELA DO GLORIOSO SANTO ANTÓNIO DE LISBOA A MANDOU FAZER JULIÃO PEREIRA DE CASTRO REPOSTEIRO DO NOSSO REINO DA CÂMARA DE SUA MAJESTADE E NEVEIRO DE SUA REAL CASA EM TERRA SUA ANO 1786"

No início do funcionamento da Casa da Neve o ambiente era o típico dos botequins setecentistas, frequentado por aventureiros, meretrizes e arruaceiros, tornando-se mais tarde o centro de conspirações de diversos grupos políticos e militares. Em 1784, o estabelecimento passou para o italiano Domenico Mignani, com a designação de Casa de Café Italiana – havia algumas décadas que os italianos se destacavam nos ramos da geladaria, da confeitaria, do café e das bebidas. Em 1795 passou a ostentar o nome de Café do Comércio, fazendo jus ao local. Como aconteceu com outros botequins, cafés e farmácias da cidade, onde se bebia, jogava e conspirava, o intendente Pina Manique, na sua cruzada contra o jacobinismo e libertinismo, mandou encerrar este estabelecimento em 1810, – nesta altura vulgarmente designado por Café dos Jacobinos –, pela defesa dos bons costumes, da moral e da monarquia absoluta. O jacobino Bocage (1765-1805), que frequentara o local, já não viveu este desgosto.

O Martinho da Arcada, século XIX

Com o triunfo da Revolução Liberal, em 1820, o estabelecimento reabre com o nome Café da Arcada do Terreiro do Paço pela mão de José de Melo. Mas a idade de ouro só começa em 1829 quando é tomado pelo neto de Julião Pereira de Castro, o proprietário original do café, de seu nome Martinho Bartolomeu Rodrigues, o Martinho da Neve, pois, tal como o avô, era produtor de gelo nas serras de Montejunto e da Lousã. Inicialmente, chama-se Café da Arcada. Como este empresário viria a abrir outro café junto ao Rossio, mais amplo e moderno, no recente quarteirão construído ao lado do então novo Teatro Nacional D. Maria II, com o nome de Café Martinho, o do Terreiro do Paço passa a ser conhecido por Martinho da Arcada, designação que se torna oficial em 1845.

Fernando Pessoa (à direita), o escritor António Botto, o escritor e poeta Raul Leal e o poeta modernista Augusto Ferreira Leal, tomando cerveja no Martinho da Arcada, 1928

Martinho Rodrigues e, depois, seu filho, Julião Bartolomeu Rodrigues, fazem dos dois cafés locais de encontro de políticos e literatos, em liberal convívio com comerciantes e burocratas. E, ao mesmo tempo, trouxeram as mulheres à frequência dos seus cafés, algo que acontecia então pela primeira vez. A elegante decoração com mármore e madeiras combina com as tertúlias dos progressistas, em breve rendidos ao republicanismo. Por esta altura o preço do café ascende aos 40 reis, mas por pouco tempo, pois, com a república, chegam os escudos e os cêntimos.

Pelo estabelecimento das arcadas passam figuras que fariam vingar o regime republicano, como França Borges, Afonso Costa, Bernardino Machado, Eusébio Leão, Manuel de Arriaga (primeiro Presidente da República eleito) e o poeta Henrique Lopes de Mendonça (autor da letra do Hino Nacional), que aqui tinha mesa reservada.

Café Martinho da Arcada, 1942

A família dos neveiros Bartolomeu Rodrigues já não acompanhou aqui o advento da República: durante vinte anos o café esteve nas mãos de José Isidoro Pereira que, em 1925, o trespassou à firma Mourão & Simões, Lda. Um dos sócios desta firma, Alfredo de Araújo Mourão, que já detinha a Pastelaria Ferrari, ao Chiado, tornou-se proprietário do café Martinho da Arcada em 1928. Alfredo Mourão, casado com Maria Judite de Sá Mourão, atribui-lhe então a gestão do café Martinho da Arcada, assumindo para si o comando da Pastelaria Ferrari. Foi este o período mais intensamente literário do espaço que, ainda no tempo da monarquia, fora clamado por Cesário Verde.

Fernando Pessoa saindo do Café Restaurante Martinho da Arcada

Nos anos vinte, o Martinho da Arcada começa a ser frequentado por Fernando Pessoa – depois de ter sido cliente assíduo de “A Brasileira” do Chiado –, que aqui se correspondeu com Mário de Sá Carneiro, o poeta seu confidente e companheiro na aventura da revista Orpheu, em 1915. No mesmo ano, Almada Negreiros leu aqui, pela primeira vez, o seu Manifesto Anti-Dantas. Ou porque trabalhavam na Baixa, ou porque o Chiado já não os atraía, os poetas desta geração acompanham Pessoa nesta nova morada de tertúlias. O Martinho da Arcada passa a ser o local de encontro dos heterónimos pessoanos e de António Botto, António Ferro e Raul Leal, que aqui fizeram o seu quartel-general em resposta a um movimento “moralizador” da literatura, em 1923. Conta-se que Fernando Pessoa terá tomado ali um último café – que nesta altura custava 5 tostões – com Almada Negreiros, o amigo poeta e pintor, três dias antes de falecer, a 27 de novembro de 1935.Após a ilegalização da Maçonaria, em 1935, nos anos radicais do salazarismo, tornou-se um dos pontos de afluência de inúmeros maçons e de conspiradores republicanos que, à mesa dos cafés, projetavam e sonhavam a revolução que, afinal, só se concretizaria, em 1974, com o 25 de Abril.

Almada Negreiros e Fernando Pessoa.
Desenho de Júlio Pomar para a estação de Metro do Alto dos Moinhos

Muitas vezes, após encerrado o horário de funcionamento ao público do Martinho da Arcada, o espaço do café serviu para a realização de sessões maçónicas – Alfredo de Araújo Mourão viria a ser tesoureiro do Grande Oriente Lusitano – a coberto da vigilância e repressão da polícia política.

Publicidade ao café-restaurante Martinho da Arcada, 1947

Durante o Estado Novo o café firmou os seus créditos como restaurante, com clientela elegante mas de menor notoriedade artística. Em 1960, com a morte do proprietário, é herdado por sua filha, Albertina de Sá Mourão, constituindo-se a firma Alfredo Mourão, Herdeira. Quando se dá o 25 de abril de 1974, a bica no Martinho da Arcada custa 1 escudo e 50 centavos.

Desenhos das fachadas principal e lateral do café-restaurante Martinho da Arcada

Com projeto de autor desconhecido, o Café-Restaurante Martinho da Arcada possui planta retangular, mostra 4 portas, enquadradas por 4 pilastras duplas, emolduradas em cantaria e encimadas por entablamento. Viria a ser classificado como imóvel de interesse público, pelo Instituto Português do Património Arquitetónico, em 1984. A Praça do Comércio, lugar onde está inserido, estava já classificada desde 1910 como Monumento Nacional.

A mesa onde Fernando Pessoa se sentava

Necessitando de obras urgentes de restauro, encerrou em 1988. No ano seguinte, no dia em que se iniciaram as obras, sob o projeto do arquiteto Hestnes Ferreira, Albertina de Sá Mourão vendeu a casa a António de Sousa, um minhoto que se fez homem no Rio de Janeiro.

Sala de almoços e jantares do café-restaurante Martinho da Arcada

O Café reabriu com nova gerência em 22 de fevereiro de 1990, com uma luxuosa sala de jantar. Mantém a um canto a mesa onde Fernando Pessoa escreveu os poemas da “Mensagem”, o seu único livro publicado em vida, e tem atualmente um painel de azulejos, de autoria do pintor Ângelo de Sousa, representando o escritor. Foi ainda colocado sobre o balcão corrido do café um painel de azulejos retangular figurando uma cena de cozinha de finais do séc. XVIII, de autor desconhecido. Este painel encontrava-se, anteriormente, na zona de cozinha sendo somente visto pelos funcionários.

Painel de azulejos de finais do séc. XVIII, de autor desconhecido, anteriormente incluído na cozinha

Remodelado, mas mantendo e valorizando a sua herança, o Martinho da Arcada iniciou um novo período de tertúlias, dinamizadas pelo escritor Luís Machado. Desde então, decorreram muitas dezenas de sessões com relevantes personalidades da política, das artes, da economia, da ciência e da cultura, convidadas a partilhar a sua experiência com o público. Em 1 de junho de 2000, este café atribuiu uma mesa a José Saramago em homenagem ao escritor português Prémio Nobel da Literatura.

Painel de azulejos de autoria de Ângelo de Sousa, representando Fernando Pessoa

Nota: Os dois pacotes de açúcar que constam da pagela que agora divulgo (descarregar aqui), e que publicitam as duas “casas centenárias” Pastelaria Ferrari e Café Martinho da Arcada, serão dos anos 1960/70. Estes pacotes de açúcar provavelmente terão sido servidos aos clientes das duas casas, junto com a sua bica, numa época pós-falecimento do seu então proprietário Alfredo de Araújo Mourão (1874-1960), altura em que a gerência passa para a sua filha, Albertina de Sá Mourão, constituindo-se a firma Alfredo Mourão, Herdeira.

Fontes: "Lojas com Alma: Café-Restaurante Martinho da Arcada", Revista LISBOA, julho 2017; "Café Martinho da Arcada", Restos de Colecção, https://restosdecoleccao.blogspot.com/2018/03/cafe-martinho-da-arcada.html; "Os Cafés de Lisboa", Marina Tavares Dias, Quimera, 2003; "Café Portugueses: Tertúlias e Tradição, Samuel Alemão, Edição CTT, 2017; Rota dos Cafés com História de Portugal", Vítor Marques, Caleidoscópio, 2016.

Nota: Post publicado inicialmente a 11 novembro 2022 em https://www.facebook.com/pacoteca.acucar

Na Descoberta da Nau Quinhentista em Pacote de Açúcar da TAP Air Portugal

Hoje lanço luz sobre mais uma imagem inserida num pacote de açúcar que, durante largos anos, me intrigou, não só sobre o significado da mensagem inscrita na frente da embalagem, mas também da imagem representada no seu verso.

Refiro-me ao pacote de açúcar da imagem acima que era fornecido, por volta dos anos 1980, a bordo dos aviões da nossa companhia de bandeira. Na frente da embalagem o mote “a Arte e o Saber Viajar” sobreposto a um mosaico de quadrados em fundo branco. Por baixo o logótipo “TAP AIR Portugal” em vigor entre os anos de 1979 e 2005. O verso é composto pela imagem de uma nau quinhentista, navegando num mar revolto, no que parecia ser parte de um mosaico de azulejos em tons azul. Por baixo a menção bilingue ao conteúdo da embalagem “Açúcar / Sugar” e a empresa embaladora “José Henriques & Cª Lda” de Ermesinde, da qual não tenho nenhuma outra informação para além do NIF 500574910 e da data da sua constituição, o ano de 1976. No pacote de açúcar que mostro está ainda inscrito a empresa impressora do material (papel) da embalagem, CELOPAF, que será seguramente abordada num outro artigo específico. Para além deste pacote de açúcar existem pelo menos mais quatro variantes de embalador, impressor e grafismo.

Concentremos agora a nossa atenção nas mensagens reveladas pelo pacote de açúcar. A frase “a Arte e o Saber Viajar”, conjugado com o mosaico azulejar da nau quinhentista, poderá remeter-nos para uma associação entre a arte primorosa do pintor que elabora uma pintura tão realista em azulejo, fazendo-nos parecer viajar por esses mares adentro ou, até, uma alusão à semelhança entre a arte e o saber viajar que a companhia aérea proporciona aos seus passageiros com a arte e o engenho dos primeiros audazes navegadores que desbravaram esses mares, viajando até paragens distantes. Serão duas leituras possíveis, mas outras haverá, seguramente. No entanto a minha curiosidade queria ir mais longe, perdurando no meu pensamento, ao longo destes anos, algumas perguntas: “Onde se poderia encontrar o painel de azulejos com aquela nau? O que mais estaria representado no restante painel? Quem seria o seu autor?”.

Pois, só muito recentemente, a minha curiosidade foi satisfeita ao ter voltado a pôr os olhos neste pacote de açúcar e iniciado buscas por informações na internet. Facilmente identifiquei outras imagens de um painel de azulejos, mais amplo, onde surgia a “nossa” nau quinhentista, navegando de conserva junto de outra embarcação, por forma a poderem prestar mútuo socorro em caso de perigo, como era habitual naquela época dos Descobrimentos (figura seguinte).

No entanto, ainda não tinha resposta às minhas outras perguntas e as minhas contínuas buscas por mais informação, revelaram-se infrutíferas.

Foi finalmente através de um contacto estabelecido com o Museu Nacional do Azulejo, em Lisboa, que me chegou a informação: o painel em questão pertencia a um vasto conjunto aplicado no Chafariz Velho de Paço de Arcos.

Este chafariz localiza-se junto ao passeio da Avenida Marginal, virado para o mar, a seguir à Curva dos Pinheiros, entre Paço de Arcos e Oeiras. A tendência, para quem passa na Marginal, é olhar para o Tejo que segue, serenamente, para o mar. Razão bastante para que aquele lugar nunca me tenha despertado a atenção suficiente para uma visita, nas inúmeras vezes que por lá passei. Parar perto também não é fácil pois tem de se andar a pé desde o Palácio dos Arcos ou do Forte da Giribita.

O fontanário, que data do ano de 1775, construído, portanto, 20 anos pós-terramoto, é obra dos últimos anos do governo do marquês de Pombal e conde de Oeiras, Sebastião José de Carvalho e Melo. Era aliás neste local que se formava a guarda de honra para a cerimónia de entrada do ministro na Vila de Oeiras. O Chafariz Real, que era o seu verdadeiro nome no reinado de D. José, recebia a água de uma mina situada nos altos do lugar de Terrugem, água finíssima e muito apreciada, de que se abasteciam antigamente os barcos de pesca e uma grande parte da população daquela vila. Serviu, também, de lavadouro público e de bebedouro de animais, sendo considerada pelo povo como uma espécie de “fonte dos amores”, dizendo-se até que “quem bebesse água do Chafariz Velho… nunca mais sairia de cá!”.

Entretanto, a construção da Estrada Marginal (hoje Avenida) nos anos 40 do século XX veio cortar as ligações do fontanário com a terra, acabando por ficar um pouco esquecido e ao abandono.

É então, no ano de 1957, na intenção de dar realização a uma ideia manifestada pelo falecido ministro Eng.º Duarte Pacheco, que a Câmara Municipal de Oeiras realiza as obras de arranjo do local e restauração da antiga fonte pombalina. Embora haja alguma incerteza quanto à autoria do seu projeto, se por um lado o Arquiteto Carlos Mardel ou, por outro, Reinaldo Manuel dos Santos, sabe-se, no entanto, que os trabalhos consistiram no pavimento ao nível da estrada por meio de duas fiadas de escadaria, a ampliação dos paredões laterais, enquadrados com pilares de cantaria e ornatos no estilo antigo, já existente, formando um semicírculo.

Seria mais tarde completamente revestido com diversos painéis de azulejos, em tom de azul, com motivos históricos das descobertas e viagens marítimas portuguesas, executados, propositadamente, sob desenhos do pintor Rogério Amaral na velha Fábrica de Faianças e Azulejos Sant'Anna de Gaeiras & Quental, Lda. De um lado estão representadas as naus que partem, o erguer do padrão nas terras de chegada, do outro as naus que chegam e o Infante D. Henrique, "O Navegador".






Ficaram assim desvendadas todas as questões maiores que me apoquentavam sempre que passava os olhos por este pacote de açúcar e que me permitiram, agora, descobrir e recordar alguns factos da nossa História.

Fontes: Paço d'Arcos, Chafariz Velho, 1775, in blogue Partilhar Diferenças, http://partilhardiferencas.blogspot.com/2008/05/pao-darcos-chafariz-velho-1775.html; Chafarizes, site Município de Oeiras, https://www.oeiras.pt/chafarizes.

Nota: Post publicado inicialmente a 22 outubro 2022 em https://www.facebook.com/pacoteca.acucar

Cavalo do Grupo Monteiro Ribas é Símbolo em Pacotes de Açúcar

O Grupo MONTEIRO, RIBAS - Indústrias S.A. nasceu da antiga “Companhia Portugueza de Cortumes”, fundada em 1917 e adquirida em 1937, à data em liquidação, por dois sócios, Manuel Alves Monteiro e António de Bessa Ribas. 

Manuel Alves Monteiro (esquerda) e António da Bessa Ribas (direita),
sócios fundadores da empresa origem do Grupo Monteiro Ribas.

A sociedade por quotas, constituída em 15 de setembro de 1937, denominada Fábrica Portuguesa de Curtumes de Monteiro, Bessa Ribas & Cia Lda, estabelece aí a sua sede, no local que ainda hoje ocupa, na Estrada Exterior da Circunvalação, ao Amial (Porto).

Instalações da primitiva “Companhia Portugueza de Cortumes”

Em 9 de maio de 1940, altera-se a denominação da Fábrica Portuguesa de Curtumes de Monteiro, Bessa Ribas & Cia Lda, para Monteiro, Bessa Ribas & Cia Lda que, 8 anos depois, seria vendida à Fábrica Portuense de Curtumes Lda, detida então pelos mesmos sócios.

Com o início da sua atividade, torna-se rapidamente, na década de 50, numa empresa líder do setor industrial dos curtumes, no mercado nacional.

Na década de 60, já sob a liderança de Josué Monteiro e Duval Mena, a empresa alargou horizontes, aumentando a gama de produtos provenientes do seu principal mercado, a indústria do calçado. Logo em 1960 inicia a produção de placas de borracha para solados, tendo sido criada a denominada Unidade C para identificar a fábrica de Curtumes e Unidade K para a Borracha (“Kautchu”).

A 27 de setembro de 1962 é alterada a denominação da Fábrica Portuense de Curtumes Lda, transformando-se em Monteiro, Ribas – Fábrica Portuense de Curtumes S.A.R.L.

Tendo a preocupação com os impactos ambientais vindo a aumentar ao longo dos anos, e com o avanço tecnológico a permitir a obtenção de alternativas ao couro a menor custo, a importância dos curtumes foi perdendo valor. Apostando na expansão do seu mercado, em 1966, a Monteiro Ribas inicia o fabrico de Couro Artificial, criando a Unidade J, destinado ao mercado de marroquinaria, vestuário, estofos entre outros.

Quase simultaneamente ao início desta atividade, mais precisamente em 1967, a empresa, face à necessidade interna de dispor de embalagens em polietileno para couros, instalou uma unidade industrial destinada ao fabrico de Plásticos (Unidade P).

Em 1972, quando empregava cerca de 700 pessoas e ocupava 42000 m2, dá-se nova alteração de denominação da empresa para Monteiro, Ribas – Indústrias S.A.R.L., bem como a criação do seu primeiro logótipo com a figura de um cavalo galopante, muito provavelmente como referência às origens desta fábrica.

Primeiro logótipo da Monteiro, Ribas - Insdústrias S.A.R.L., anos 1970

Em 1973 é adquirida a empresa Flexocol – Fábrica de Artefactos de Borracha, Lda, sediada em Leça do Balio, que se dedicava ao fabrico de peças de borracha com metal.

No ano de 1977 a Unidade K inicia o fabrico de peças técnicas de borracha por injeção, inicialmente destinadas à construção civil, mercado progressivamente substituído pela indústria automóvel e de eletrodomésticos.

Instalações da Monteiro, Ribas - Indústrias S.A.R.L., anos 1970/80

Em 1992 é adquirido um sistema de Cogeração (Unidade E) de energia passando a Monteiro, Ribas a produzir energia elétrica, que fornece à rede, e térmica. A cogeração adquire o nome de Monteiro, Ribas – Produção e Distribuição de Energia (PDE).

Em 1993, na Unidade C das instalações do Porto, apenas já é só feito o tratamento de peles, pois tinha sido inaugurada uma fábrica de curtumes nova em Alcanena, e estabelecida uma participação numa fábrica na China.

Neste mesmo ano de 1993 foi feito o registo do novo logótipo da empresa, mantendo-se nele a figura de um cavalo negro, agora empinado sobre as patas traseiras.

Logótipo da Monteiro, Ribas desde 1993

Depois, em 1996, dá-se a separação da Unidade K, criando-se a CTB – Componentes Técnicos em Borracha, Lda, ficando esta responsável pela produção de componentes técnicos em borracha pelos processos de compressão, transferência e injeção, destinados aos setores automóvel e eletrodomésticos. Já a Unidade K – Monteiro, Ribas – Indústrias, S.A. fica com a produção de placas de borracha para solas, destinadas à indústria do calçado e ao mercado de reparação de calçado.

Em 2003 o Grupo adquire a empresa Wood Milne que se dedica à comercialização de placas de borracha para a indústria da reparação de calçado.

A partir da segunda metade dos anos 1990 iniciou-se um fenómeno de deslocalização das grande fábricas de calçado, levantando bastantes dificuldades à empresa que, aliadas aos altos custos fixos de produção de um artigo tão delicado e tratado, como o é a pele ou couro do animal, levaram o Grupo, em 2004, a encerrar a unidade de acabamentos no Porto (Unidade C) e em 2010 a vender a unidade localizada em Alcanena.

Em 2008 a Unidade J separa-se juridicamente da Monteiro, Ribas – Indústrias, S.A., alterando a sua denominação para Monteiro, Ribas – Revestimentos, Lda.

Planta das instalações indutriais da Monteiro Ribas no Porto

A unidade de fabrico de Plásticos (Unidade P), tendo iniciado a sua produção com a extrusão de polietileno, a impressão em flexografia e confeção de sacos, progrediu para a impressão em rotogravura de filmes de celofane e, posteriormente, de polipropileno para a indústria alimentar, acrescentando mais tarde a complexagem de filmes (união de dois ou mais filmes) com adesivo, com solvente.

A partir dos anos 90, esta unidade reforça a sua posição no mercado de exportação, especializando-se progressivamente no mercado agroalimentar. Este alargamento da empresa aos mercados internacionais levou à necessidade de investir em diversas certificações. Assim, em 1999, esta unidade industrial obtém a certificação do Sistema de Gestão da Qualidade, segundo a NP EN ISO 9001, em 2008 obtém a certificação em Segurança Alimentar, pela norma NP EN ISO 22000, seguida de certificação Global Standard for Packaging and Packaging Materials, obtida no ano seguinte.

Logótipo da Monteiro, Ribas - Embalagens Flexíveis

Entretanto, em 2005, altera a sua denominação para Monteiro, Ribas – Embalagens Flexíveis, S.A., conhecida também internamente pelas siglas MREF, tornando-se uma empresa juridicamente independente e tomando o papel de principal acionista.

Vista aérea das instalações da Monteiro, Ribas

Atualmente, os principais produtos desta unidade industrial são Embalagens Flexíveis com impressão de rotogravura e flexogravura e complexagem, com adesivo, com e sem solvente. Transforma ainda filmes lisos ou impressos, simples ou complexos, em bobinas ou sacos. Os materiais mais utilizados nas embalagens são o poliéster (PET), polietileno (PE), polipropileno (PP), poliamida (PA), o alumínio, papel, celofane e outros materiais mono e bi-orientados.

Algumas das entidades acionista maioritárias que controlam o Grupo Monteiro, Ribas – Indústrias, S.A. são ainda descendentes das famílias fundadoras da empresa, pertencendo atualmente à 4ª geração, pelo que a raiz familiar ainda está muito marcada na empresa. Pese embora o crescimento e emancipação cada vez mais acentuada de algumas das empresas do grupo em relação à empresa-mãe, a marca elementar “Monteiro, Ribas” tem permanecido como denominador comum de todas as suas “sub-empresas”. A empresa tem aproveitado assim o nome e sinal de tradição e prestígio da marca “Monteiro, Ribas”, dado o capital de força que esta foi acumulado ao longo das décadas da sua existência. O uso consistente do logótipo clássico da sua empresa-mãe (o cavalo sobre duas patas), tem sido uma parte essencial para construir uma forte imagem corporativa.

Instalações da Monteiro, Ribas - anos 1990

Entretanto, o grupo sente a necessidade de alargamento da sua gama de produtos para a indústria de embalagens de cartão, adquirindo, em 2016, a empresa Liderbox – Artes Gráficas, S.A. Esta empresa, criada em 1978 e sediada em Barcelos, centra a sua atividade na produção de embalagens em cartolina litografada e microcanelado, destinadas a diversas indústrias, nomeadamente, alimentar, têxtil, farmacêutica, higiene e cosmética, telecomunicações e outras.

Em 2018 dá-se início a uma mudança da imagem institucional do Grupo Monteiro, Ribas – Indústrias, S.A. através da criação de um novo logótipo mais moderno e atual. Contudo, fruto da sua forte marca no mercado nacional e internacional, foi mantida parte da figura de um cavalo e o nome do Grupo.

Seguiu-se a criação da marca Monteiro Packaging englobando as empresas Monteiro Ribas – Embalagens Flexíveis, S.A. e a Liderbox – Artes Gráficas, S.A. Sob esta marca são assim produzidas embalagens em filme ou em cartolina, essencialmente para o mercado europeu da indústria alimentar.


Para além da Monteiro Packaging, o grupo criou ainda mais três marcas nas restantes áreas da indústria em que opera: a Monteiro Fabrics na produção de couro artificial para aplicações em estofos, calçado e marroquinaria; a Monteiro Footwear na produção de placas de borracha para a indústria do calçado; e a Monteiro Elastomers na produção de peças técnicas em borracha por injeção destinadas, entre outras, à indústria automóvel e de eletrodomésticos.

Nota: Na pagela que partilho, que poderão descarregar aqui, representa-se o único pacote de açúcar que conheço, ostentado o símbolo do Grupo Monteiro Ribas, lançado no ano 2000 pela Beira Douro Cafés. Haverá outros?

Nota: Post publicado inicialmente a 8 outubro 2022 em https://www.facebook.com/pacoteca.acucar

Fontes: site do Grupo Monteiro Ribas: https://www.monteiroribas.com; Dissertação “Responsabilidade Ambiental no perímetro Industrial da Monteiro, Ribas - Indústrias, S.A., Ana Leal, Julho 2012; “Monteiro Ribas, O futuro mais cedo”, Reportagem, Rui Escaleira

Campo Maior & Café em Pacotes de Açúcar


No âmbito do Encontro de Colecionismo de Campo Maior, realizado no dia 8 de março, e promovido pelo CLUPAC - Clube Português de Colecionadores de Pacotes de Açúcar, com o apoio da Delta Cafés, tive a oportunidade de expor um conjunto de pagelas alusivas ao concelho de Campo Maior e à sua tradição na indústria do Café.

Neste encontro de trocas e também expositivo de algumas coleções, que se realizou sob o mote do "Dia Internacional da Mulher 2025", apresentei ainda imagens de alguns pacotes de açúcar nacionais onde a mulher é representada ou aludida, acompanhadas por um enquadramento cronológico, à luz da sociedade da época.









Séries (Des)conhecidas: “A Verdade do Café” e suas Variantes


Hoje partilho um conjunto de 16 séries e variantes não muito consensuais entre os colecionadores de pacotes de açúcar.

Trata-se de pacotes de açúcar, por muitos denominados “Comerciais”, publicitando a marca Delta Cafés e os seus Lotes Ouro e Platina, sob o mote “A Verdade do Café”, que terão circulado algures entre os anos de 1990 e 1995, sensivelmente.

A série principal (e suas variantes) é composta por 5 pacotes de açúcar, todas com o mote “A Verdade do Café”, dos quais 3 deles apresentam o grafismo de uma chávena de café fumegante que, de imagem para imagem, parece “querer” desaparecer dos limites da embalagem e, nos outros 2 pacotes de açúcar, já não surge a imagem da chávena, mas apenas o fumo que dela sai, um com a indicação “Lote ouro” e o outro “Lote platina”. As variantes desta série apresentam, como elemento diferenciador, a empresa impressora do papel das embalagens (séries 1 a 5 das tabelas que partilho).

Depois, a série “A Verdade do Café II” difere das anteriores na indicação do peso do açúcar embalado, bem como nas dimensões dos pacotes de açúcar (mais reduzidas). Desta série apenas são conhecidas três das imagens que atrás referi (série 6 das tabelas).

A série e suas variantes, que nomeei “A Verdade do Café III”, diverge da série anterior na alteração do nome dos lotes, passando a designar-se “Delta ouro” e “Delta platina”. As variantes desta série também apresentam, como elemento diferenciador, a empresa impressora. Também desta série são apenas conhecidas as mesmas três imagens da anterior (séries 7 a 9 das tabelas).

Passando à série “A Verdade do Café IV” e suas variantes, mudam as dimensões e a indicação do peso dos pacotes de açúcar, bem como a referência a qualquer um dos lotes, sendo estes substituídos por um pacote de açúcar apenas com o fumo da chávena “desaparecida”. As variantes desta série apresentam, como elementos diferenciadores, para além do impressor, duas variações nos números de telefone da fábrica de Campo Maior. Destas variantes apenas são conhecidas duas das imagens (séries 10 a 13 das tabelas).

Por sua vez, a série “A Verdade do Café V” e sua variante, apresenta alteração na indicação do peso e diferenciam-se pela alteração dos números de telefone da fábrica de Campo Maior. As imagens conhecidas também são apenas duas (séries 14 e 15 das tabelas).

Por último, na série “A Verdade do Café VI” dá-se novamente uma alteração das dimensões dos pacotes de açúcar (igual ao tamanho da primeira série), sendo, nesta, conhecidas as 4 imagens diferentes (série 16 das tabelas).

Chegados aqui, a confusão já deve ser muita, mas as tabelas e as próprias pagelas que partilho serão, assim o espero, esclarecedoras.

Mas por que razão estas séries não são consensuais entre os colecionadores?

Pois bem, esta “confusão” de variações de elementos diferenciadores será uma delas, bem como o facto de não serem conhecidas todas as imagens para cada uma das variantes. Sobre estes factos, apresento a minha teoria, corroborada por alguns outros colecionadores: as imagens que compõem a matriz dos clichés das frentes e dos versos, que serviram de base à impressão das embalagens, serão todas iguais. Assim, cada bobina com o papel impresso possuía a mesma imagem, resultando que apenas quando uma bobina acabava, se poderia alterar para outra bobina que tivesse outro padrão de imagem. Este aspeto é corroborado por imagens vídeos institucionais da Delta Cafés e pelo facto de, recorrendo à minha memória, ter a ideia de que a imagem destes pacotes de açúcar que chegavam a casa pelas mãos do meu pai, vindos do café lá do bairro, apenas era alterada de tempos a tempos.

Mas, se assim for, podemos considerá-las como séries?

Segundo a definição de “Série de Pacotes de Açúcar”, redigida em 2007 pelo grupo de trabalho ao qual pertenci e publicada na edição n.º 9 de “O Pacotim”, o boletim do CLUPAC – Clube Português de Colecionadores de Pacotes de Açúcar, são “duas ou mais Embalagens de Açúcar, produzidas intencionalmente para formar um conjunto, com unidade temática ou gráfica. (…)”.

Penso que relativamente à “unidade temática ou gráfica” não deve haver qualquer dúvida. Em relação à intenção de formarem um conjunto, tal como atrás descrito, é minha opinião que sim, pese embora o facto de, por eventuais vicissitudes no processo produtivo ou outro, não ter havido o cuidado de serem embalados os pacotes de açúcar com todas as possíveis combinações das imagens das frentes e versos.

Sejam séries ou individuais fica aqui a partilha deste conhecimento, aguardando pelos vossos comentários. Caso sejam possuidores dos pacotes de açúcar que desconheço a sua existência (identificados com um ponto de interrogação), agradecia que partilhassem essa informação.

Partilho a pagela em formato pdf, que poderão descarregar aqui.

Nota: Post publicado inicialmente a 22 setembro 2022 em https://www.facebook.com/pacoteca.acucar










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